terça-feira, janeiro 12, 2016

LIEKE MARSMAN



LIEKE MARSMAN (Zaltbommel, 1990). Jovem poeta holandesa que começou por publicar poemas na  revista literária Tirade, onde tem um blog e faz tradução de jovens poetas americanos contemporâneos. Em 2010 publicou o livro Wat ik mezelf graag voorhoud (Do que eu gosto de me convencer) que ganhou de imediato três prémios literários, entre os quais o prestigiado Prémio C. Buddingh para melhor estreante de poesia. Em 2014 foi editado o seu segundo livro, De eerste letter (A primeira letra). Ainda numa viagem de descoberta da sua voz, a poesia de Lieke Marsman é acessível, introvertida, sensível e analisa o interior do indivíduo, não descurando o que o rodeia. Os tópicos giram em torno da incerteza e da dúvida, qualquer que ela seja: insegurança social, a infância, questões existenciais, grandes e pequenas dúvidas sobre comportamentos, medos e relacionamentos humanos. Isso repercute-se num eu que interroga, sonha, por vezes analisa. Numa entrevista dada à (também ela) jovem crítica literária Marleen Louter, diz Lieke Marsman: “Um poema meu não é necessariamente um poema sobre a minha pessoa. O início do poema tem a ver comigo, mas depois aumento coisas, escrevo sobre outras pessoas a partir da minha perspectiva”. E, noutra parte da entrevista diz: “É uma espécie de contraste (...) pôr sob a forma de um enunciado bonito coisas que talvez não o sejam na realidade.” Lieke Marsman é considerada uma grande promessa das letras holandesas.
Eis alguns poemas, em mais uma tradução de Leonor Raven.
 
 
ENTRETANTO
Às vezes, somente penso
que devo escrever o mais depressa possível
um conto sobre uma paisagem de neve. Enterrar-me até à relva,
calçada de botas de neve e, escavar avalanches ocas. Se olhar,
conheço os nomes de todas as plantas de cor
sobre elas cantarei em tons de dança
até ficarem de novo a descoberto.
 
Deixarei pedaços da minha úvula no ar,
vazia a minha garganta. Devagarinho, a minha voz
amarrotará estas paredes de neve
até haver tanto lodo
que não conseguiremos caminhar.
 
Ser levada lentamente pela corrente
com as rochas e os ratos, os pinheiros e
os campos, capelas, as imagens da Virgem
que usam os altares como navios.
 
Cantarei tão alto que
o musgo liquefar-se-á.
 
Cantarei tão alto que
a montanha derreter-se-á.
 
Cantarei tão alto que
voltará a ser possível afogarem-se
cavalos no pântano aos meus pés.
 
(De Wat ik mijzelf graag voorhoud, 2010)
 
 
§
 
 
COMO PALAVRAS
Não preciso de pôr um ponto final
a algo que está irrevogavelmente suspenso.
 
Não me devo esconder no rosto de outra pessoa ou
ficar desanimada com isso. Devo projectar algo
que irá descobrir-se ser um mapa, iniciar uma viagem
bela e inesgotável como palavras, como palavras.
 
Não preciso de abrir uma porta
para a deixar entrar.
 
Tão-só fechar uma janela
que ela irá querer arrombar.
 
(De De eerste letter, 2014)
 
 
§
 
 
5
 
Se a palavra angústia começasse pela primeira letra do alfabeto em cada língua
Se eu acordada pensasse que iria despertar de repente
Se eu visse constantemente algo mexer-se no canto do olho,
Sendo contudo sempre uma árvore existente
Se eu tivesse medo de repentinamente começar a pensar que
tudo girava à volta da minha pessoa
Se tudo girasse à minha volta
Se eu esperasse que a minha respiração recuperasse espontaneamente
porque me tinha esquecido que já o fazia, como uma criança
que pensa que vai deixar de ter oxigénio durante o sono
Se eu fosse novamente essa criança
Se eu tivesse medo que a partir de agora o tempo deixasse de passar,
o que me obrigaria a ficar neste momento para sempre
Se me culpasse de ser paradoxal, seria logicamente obrigada
a perdoar-me ao mesmo tempo
Se eu pensasse que de repente o mundo se abriria
Sob a forma de um olho de gato ou de uma vagina:
 
Aqui
ergue-te, abre uma janela
com uma mão que sentes, à vista
de alguém que queres sentir,
no reflexo da janela fechada.
 
( de De eerste letter, 2014)

JANNAH LOONTJES

 
 
JANNAH LOONTJES (Copenhaga, 1974). Filha de um casal de hippies que se mudou pouco tempo após o seu nascimento para a Suécia, dividiu os anos de infância entre esse país e a Holanda, até se mudar definitivamente com a mãe para a Holanda, onde estudou Filosofia da Arte na Universidade de Amesterdão. Depois da licenciatura, estudou Filosofia  em Nova Iorque, na New School for Social Research. Em 2012 doutorou-se em Estudos Literários na universidade de Amesterdão.
Poeta, prosaísta, filósofa, docente de análise literária e de filosofia, Jannah Loontjes publicou em 2002 o seu primeiro livro de poesia intitulado  Varianten van nu (Variações  Actuais) . Em 2006 foi publicado o seu segundo livro, também de poesia, Het ongelooflijke krimpen (O encolhimento inacreditável). Estreou-se como romancista em 2007 com o romance Veel geluk (Boa Sorte),  a que se seguiu  em 2011 o romance Hoe laat eigenlijk (Que Horas São Estas?), muito bem acolhido pela crítica e nomeado para o Prémio Literário Halewijn.  O ano de 2013 foi especialmente frutífero, tendo publicado um livro de poesia Dat ben jij toch (És tu porém) e um conjunto de ensaios intitulado Mijn leven is mooier dan literatuur (A Minha Vida é Mais Bonita do que a Literatura). Jannah Loontjes escreve ainda críticas literárias para vários jornais e revistas de referência, assim como ensaios sobre poesia e filosofia.
Embora o tom usado na sua obra poética seja ligeiro e gracioso, os temas que aborda podem envolver questões tão antigas como a Humanidade; questões existenciais que todos nós alguma vez nos colocamos. Loontjes mostra interesse em compreender o que sentimos, o que pensamos, como reagimos em grupo ou individualmente, e, aquilo que nos torna únicos como seres humanos. Muitas poesias incidem sobre a vivência do indivíduo numa situação concreta, utilizando uma linguagem acessível, a que não faltam os sons nem as cores. A sua poesia é sobretudo uma expressão da sua admiração e curiosidade pelo que nos rodeia.
Em mais uma excelente tradução de Maria Leonor Raven-Gomes, quatro poemas.


§ 


TAMBÉM

Mãos inexistentes segurando coisa nenhuma
zero graus talvez existam,
contudo. O leite também azeda
com a trovoada. Os vulcões têm nomes
permanentes, mesmo se não expelem lava.
O mesmo nome não promete que
sejamos semelhantes. Água e fantasmas
conseguem atravessar muitas coisas.
Consegues ver através de nada? Os fantasmas
vivem, sim e não. Ausente é quando estás
não estando. Às vezes sinto a tua ausência
mesmo estando tu presente. Às vezes estás
sem seres  aquele de quem sinto a falta.
Nem todas as nuvens têm um nome.

(de Dat ben jij toch, 2013)

§


TRASEIRAS

Abro a porta, entro na varanda. Noite.
Nos quintais vestígios de pombos. Neve
que jaz ao acaso. Um gato sob um arbusto
sacode o pêlo, embosca uma sombra. 

A lua descansa sobre um telhado. Cortada por vozes
que cantam. Al Jazeera.
Roupa enregelada pendurada num silêncio de morte.
A camada branca ocupa tudo sem vergonha, faz amizade

com ombreiras pálidas, grades de varandas, antenas parabólicas.
Também eu pertenço aqui. Sozinha. Porém,
rodeada de gente e animais.
Porém e porém. Isto é tão inverno, tão noite
como uma noite de inverno. Aspiro. Cheiro. Lixo.
Humidade. Cozinha. Pêlo de gato.

(de Dat ben jij toch, 2013)

§


PANORAMA

A noite paira sobre a cidade
imóvel como numa fotografia,
um filtro de crepúsculo lilás
granula o panorama,
entranha-o como
folhas de chá
em água a ferver
e descolora  a vida
como algo
numa velha fotografia polaróide
que mais tarde
quando espero esquecer
me irá recordar
flâmulas de paixão
nas quais o teu nome ondula
como um cachecol perdido
em dias tímidos de inverno.

(de Varianten van nu, 2002)

§


ENFADO

Como uma ligadura de gesso
o tempo enrolou-se à volta das
minhas pernas,
nada vejo à minha volta
ou parece que tudo desapareceu.
Amanhã e ontem colocam-me
as mesmas questões
hoje dobra-se entre
o papel empoeirado
de um pesado livro enfadonho
em cima da secretária,
aonde me sento
e sento.

(de Varianten van nu, 2002)

quarta-feira, abril 02, 2014

INGMAR HEYTZE


INGMAR HEYTZE (Utrecht, 16 de Fevereiro de 1970) começou a escrever poesia aos 15 anos. Cursou Linguas e Literaturas Modernas na sua cidade natal, especializando-se em Comunicação. Faz parte de um grupo de escritores e jornalistas da cidade de Utrecht que tem vários poemas espalhados em muros e paredes da cidade, apelidado de Utrecht Maffia. Este grupo reúne-se regularmente em tertúlia no Café-Teatro De Bastaard. Heytze começou a sua carreira de poeta declamando em palco, aquilo a que na Holanda se chama podiumkunst.  No início, notava-se muito a influência dessa forma de fazer poesia: uma poesia de fácil acesso em termos de vocabulário, por vezes ritmada, abordando variados assuntos, mesmo os mais absurdos, a tempos de forma bombástica e, regularmente com um toque de humor. Essa nota de humor é, segundo o próprio poeta, uma maneira de se distinguir dos seus pares e “a melhor figura de estilo que existe. Sem humor não há arte. Em primeira instância é gozar consigo mesmo”, diz ele numa entrevista concedida à revista cultural 8 weekly. Entretanto, a sua obra tornou-se mais madura, embora se continue a observar um certo elemento de surpresa e irreverência, muitas vezes sob a forma de um punch no último verso. Incide actualmente na observação e na análise de situações ou sentimentos. A acção centra-se em Utrecht (cidade que praticamente não abandona por fobia de viajar), tendo sido o primeiro ‘poeta oficial’ da cidade. Em 2008 foi-lhe atribuído o prémio C.C.S. Crone para estímulo a jovens escritores. A obra de Ingmar Heytze é extensa e variada. Além de continuar a escrever poesia e declamar em público, trabalha para vários jornais e revistas como free-lancer, colabora com outros poetas e escritores, e desde 2009 faz parte de uma banda intitulada Asfaltfeeë, na qual também participam mais alguns artistas conceituados.
Os sete poemas que se seguem foram traduzidos do livro Ademhalen onder de maan (Respirar sob a lua, 2011) por Maria Leonor Raven-Gomes, a quem também se deve a nota introdutória. Muito obrigado, Leonor!
 
 
O ÚLTIMO HOMEM A FALAR UBYKH

Por vezes, no decorrer dos últimos meses,
ele pensava numa palavra
e tentava lembrar-se da árvore ou da espécie de sapo
que ela nomeava:
a verdadeira árvore, sapo ou emoção
e não o sinónimo numa outra língua,
a língua que lhe levara os filhos e a luz da montanha,
os túmulos que ele varria e cuidava, as canções dos casamentos.
Enquanto anos de silêncio se conjugavam à soalheira
ele ficava no quintal
e sussurrava o nome de um pássaro
na sua língua materna,
enquanto memórias de neve e dias de feira,
das mãos do seu pai, do odor a tamarindo
se retiravam em palavras puídas:
o azul da infância dobrado como um lençol
e arrecadado.
Nada do que ele dizia era recordado; nada do que fazia
facto ou lenda,
na praça da aldeia.
Contudo reteriam mais tarde a palavra
que disse nessa manhã, pouco antes de morrer:
um nome para a morte, talvez,
ou para a erva dos prados,
ou, surgida à beira do pensamento,
uma outra palavra que havia quando ele era pequeno,
uma palavra raramente utilizada, embora existisse
para tudo o que ninguém conseguia recordar.
John Burnside
 
§
 
PRIMEIRA MEDITAÇÃO

És a única árvore no mundo que recusa
crescer em direcção à luz. Em vez disso enterras-te
com raízes cada vez mais profundas,
camada de terra após camada, tempo passado,
rumo ao calor, e calculas já estar a meio caminho.
Depressa deixas de sentir as toupeiras, minhocas
ou raízes de outros seres, tetra-cego das cavernas
na sua noite infinita. O frio é cada vez maior.
Não sabes se consegues crescer a distância necessária
para encontrares o magma. Estás só, mas a caminho.
 
§
 
LEBRES

As lebres são as mais bonitas, diz ela.
As lebres estão prontas para correr desde que nascem:
patas, olhos e orelhas, tudo funciona desde o início.
Não há animal mais camuflado do que a lebre.
Uma lebre só se veste de prado,
na distância que a separa de ti.
Uma lebre está nua sob o céu.
E os ouriços-cacheiros, pergunto, como são os ouriços?
Os ouriços-cacheiros, diz ela, são míopes, lentos,
sempre a vasculhar nos arbustos, como pequenos trapeiros.
Também são bonitos, mas diferentes, acanhados.
A maneira como eles tentam encobrir
a brandura num forte de espinhos.
Como nunca conseguem
ocultar-se  em si mesmos.
As lebres, diz-me depois de uns momentos,
as lebres são ouriços do avesso.
 
§
 
MARKET MAKER

A única coisa que posso fazer por si, diz o homem
atrás dos computadores, é premir um botão a tempo
porque tudo tem que desaparecer, desaparecer e desaparecer.
E quase ninguém sabe quando é que na realidade
ele preme um gatilho. O passado foi à falência,
o futuro não me interessa; a verdade
flui em números cinzentos pelas minhas retinas,
um piscar de olhos e a próxima apresenta-se.
Os dias não são bons ou maus, vivo indiferente
a onde paro e ao que ponho em movimento.
É assim que eu vejo as coisas: piloto um navio,
o radar pia para onde. O mar? Nunca olhei para ele.
Posso chamar-lhe papá? Tenho biliões de pais e hoje
desapontei-os a todos. Não chore. Prefiro que
me conte uma história para eu conseguir dormir.
 
 
§
 
ÀS VEZES ESTRELAS

Os vizinhos da esquerda, ar reformado
sobre um telhado entre paredes exteriores.
À direita, uma mulher que fala com a televisão
e todas as noites adormece antes das dez.
Debaixo: homem que acorda assustado
se algures alguém abre uma torneira.
Por cima: pombos. De vez em quando uma andorinha.
Às vezes estrelas. Mas mais frequentemente
a trovoada me visita.
 
 
§
 
SEGUNDA MEDITAÇÃO

Alguém te sopra como se fosses um dente-de-leão.
Nua, flutuas no escuro e não sabes –
o que é escuridão, ou luz, ou tu, ou existência.
E no entanto as sementes dançam à tua volta,
filamentos a caminho do nada. Talvez um caia em terra fofa.
A probabilidade de germinar é extraordinariamente pequena,
mas tudo flutua. Tudo junto és tu.
 
§
 
O QUADRO ELECTRÓNICO

Vi-te pela primeira vez debaixo do quadro electrónico.
Que se agitava e movia como uma roda da sorte;
novos horários, comboios extra, locais para onde viajar.
Tinhas ficado à espera, mesmo sem saberes do quê,
disseste-mo essa noite sob as estrelas que
observávamos através da janela do sótão.
Como se o fim estivesse adaptado à forma
contida nele desde o início, veio uma manhã
em que te foste embora. Murmuraste ainda algo
sobre cometas que não sabem onde a trajectória os leva. 
Levei-te à estação. O átrio parecia agora muito maior,
a luz incidia de forma estranha – vi-te pela última vez
debaixo do quadro electrónico, que matraqueava destinos
como se o tempo tivesse ficado suspenso. Olhaste para cima,
escolheste um cais longínquo. A escada rolante engoliu-te.
Ninguém se voltou para olhar para trás.

terça-feira, outubro 22, 2013

NOTAS SOBRE LIVROS (16)


MIGUEL MARTINS
Lérias
Lisboa, Averno, 2011
 
 
por JOÃO PAULO SOUSA
 
 
Na aparente atitude de desvalorização do que nomeia, o título desta obra de Miguel Martins (dotada de um grafismo raro e belo, da responsabilidade do também poeta Rui Pires Cabral) escapa por instantes à ingenuidade que contamina alguns dos seus textos. São poemas em prosa, que oscilam entre um registo a roçar o desvelamento de traços biográficos do sujeito poético e a manifestação de opiniões ou de opções existenciais. Neles constata-se, por vezes, uma força e uma segurança assinaláveis, mas não menos vezes tem-se a impressão de que o poema se estendeu para lá do que seria desejável – perdendo o fulgor que a contenção lhe poderia ter dado – ou que não ultrapassou o mero registo dos sinais inerentes a uma atitude contestatária. Assim, se há momentos bem conseguidos, que abrem ao leitor uma perspectiva menos expectável acerca de um determinado assunto, outros há que, alheados da ironia, se ficam pela manifestação de um olhar em que um certo tom de revolta não chega para dissimular a candura, que é a sua característica mais marcante. Veja-se, a título de exemplo do primeiro caso, a abertura do poema 13, «Do tacto», e repare-se como ela nos conduz até uma ideia de libertação habilmente enunciada:
 
Do tacto pouco se fala, e quase sempre em sentido figurado. O tacto é, contudo, o mais interessante dos cinco sentidos, o menos embotado por excessos de informação, o menos sujeito a ideias de gosto, pré-concebidas por outros, o que ainda nos pode dar prazeres em estado mais puro, menos sujeitos a racionalizações, na fronteira entre o medo e a entrega. (p. 21)
 
No fundo, é talvez sobre esta oscilação entre o medo e a entrega que se constroem os poemas em prosa deste livro de Miguel Martins. Se é notório que todo o seu apoio recai sobre o segundo termo, também não deixa de ser verdade que uma entrega carregada de autenticidade está longe de ser o melhor ingrediente para uma construção poética. Um texto como «Bartleby Bar (Lisboa, década de 2010)», por exemplo, não chega sequer a parecer um manifesto de intenções, antes se assemelha a uma declaração de pertença a um grupo (edição Averno oblige?), nimbada de uma ingenuidade talvez tocante (alguns, claro, diriam autenticidade, esquecendo a dimensão irremediavelmente artificial da arte):
 
Um projecto que, para mais, não tem plano de acção, calendário ou objectivos que não os que ele mesmo comporta. A recompensa de o ir pondo em prática confina-se, precisamente, ao prazer de pô-lo em prática. E isso basta-nos. (p. 25)
 
Ainda bem. Já para fazer literatura, no entanto, é que isso não basta, e esse, ao que parece, até era o principal propósito deste livro.

quarta-feira, outubro 09, 2013

NOTAS SOBRE LIVROS (15)

HORÁCIO
Arte Poética (Epistola ad Pisones, c. 14-8 a. C.)
Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 2012
 
 
por JOÃO PAULO SOUSA
 
Quem tiver presente na memória a passagem de Raul Miguel Rosado Fernandes pela política há-de recordar-se de um homem determinado, com algum sentido de humor, embora associado a um ou outro momento de alguma truculência, na aparência pouco compatível com um cuidado tradutor de Tucídides e de Horácio. Ora, a lembrar-nos esse rigoroso trabalho, a Fundação Calouste Gulbenkian colocou recentemente nas livrarias uma nova edição (a quarta), revista e aumentada, da Arte Poética do autor latino. Na verdade, esta tradução de Rosado Fernandes, em assinalável edição bilingue, comporta, para além da célebre Epístola aos Pisões (que a tradição entendeu renomear mais em consonância com o assunto de que se ocupa), três outros textos: a Sátira IV do Livro I, a Epístola I do Livro II, dirigida a Augusto, e a Epístola II do Livro II, endereçada a Floro. Se acrescentarmos o prefácio, a introdução, as abundantes notas, a bibliografia e o índice onomástico, temos uma ideia da qualidade do pequeno volume, que apenas fraqueja na pontuação dos textos em português (as traduções e os outros), com demasiadas vírgulas mal colocadas ou por colocar.
 
Na primeira das referidas epístolas, Horácio (ou Quinto Horácio Flaco, de seu nome completo, devidamente traduzido para o português contemporâneo) defendeu o valor da obra de arte como independente do tempo histórico em que tivesse sido produzida; ao mesmo tempo, afirmou a necessidade de um aprofundado conhecimento técnico para se praticar a arte literária. Na outra epístola, que talvez fosse uma resposta ao pedido de versos por parte de Floro, o autor romano esquivou-se a essa provável solicitação com humor e audácia, mostrando a sua indisponibilidade para escrever poemas apenas porque alguém lhe solicitava tal, e defendeu que o importante, na verdade, consistia em produzir algo de qualidade.
 
Finalmente, na epístola que dirigiu aos Pisões – personalidades romanas cuja identificação rigorosa e consensual ainda não foi possível –, Horácio teorizou mais amplamente sobre literatura, e fê-lo de um modo que resistiu à passagem dos séculos, tornando o seu texto uma referência incontornável, nem sempre bem citada, da reflexão poética. Principiando com a defesa da unidade da obra de arte, através do exemplo inicial da pintura de um ser híbrido, prosseguiu com a afirmação categórica da necessidade de equilíbrio na criação artística, a que juntou outra ideia não menos importante:
 
 
Vós, que escreveis, escolhei matéria à altura das vossas forças e pesai no espírito longamente que coisas carregam e as que eles não podem suportar. A quem escolher assunto de acordo com as suas possibilidades nunca faltará eloquência nem tão-pouco ordem luzida. (pp. 109-111)
 
 
Eis aqui um tópico que tantos autores parecem esforçar-se por esquecer, escrevendo, não de acordo com aquilo a que, provisoriamente – à falta de melhor definição –, poderíamos classificar como verdade interior, mas em sintonia com o que entendem ser mais próprio desse fantasma a que chamam espírito da época, acabando assim por falsificar e arruinar irremediavelmente a sua produção artística (e não cabe aqui discutir se quem assim procede não o faz precisamente para esconder a inexistência de qualquer verdade interior que pudesse sustentar uma obra de arte digna desse nome).
 
A este princípio de adequação soube Horácio associar a defesa da técnica como elemento decisivo para a criação poética, assinalando desde logo a importância de um factor que, ao longo dos séculos, tantos zombeteiramente desprezaram:
 
 
Se não posso nem sei observar as funções prescritas e os tons característicos dos diversos géneros, por que hei-de ser saudado como poeta? Qual a razão por que prefiro, com falso pudor, desconhecê-los a aprendê-los? (p. 119)
 
 
A consequência que daí retirou o poeta romano é bem clara: a literatura é um trabalho árduo, e quem disso não se convencer perde o seu tempo a compor versos, que deles não ficará memória. Para além de recomendar que se censure todo o poema que não tiver sido longamente retalhado e aperfeiçoado, sem que o cansaço possa, em algum instante, justificar o desânimo do autor, Horácio traçou uma apologia da excelência na criação literária que deveria fazer corar de vergonha todos aqueles (e não só) que desatam a juntar frases porque lhes ocorreu, de passagem, que tinham algo para dizer, confundindo obtusamente a arte com esse lamentável «algo para dizer»:
 
 
Tu, (…) conserva bem na memória o que te digo: nas coisas positivas se concebe tolerável mediania e qualquer jurisconsulto ou advogado mediano, se não chegou à habilidade do eloquente Messala ou à ciência de Aulo Cascélio, nem por isso deixa de ter o seu valor. Mas os poetas medianos, esses não os admitem nem os deuses nem os homens, nem as estantes dos livreiros. (p. 151)
 
 
 

quinta-feira, setembro 26, 2013

Notas sobre livros (14)

GOLGONA ANGHEL
Como uma Flor de Plástico na Montra de um Talho
Porto, Assírio & Alvim, 2013


por JOÃO PAULO SOUSA


É como poesia dramática que se oferece ao leitor este volume de Golgona Anghel. Uso o adjectivo no mesmo sentido em que o empregou Pessoa para se referir à sua própria obra, na medida em que ela pressupunha – como também é agora o caso, embora em moldes diferentes – a construção de diversas personae, que respondiam artisticamente pela elaboração dos poemas. No livro agora editado pela Assírio & Alvim, essas figuras dialogam frequentemente com outras, de pendor manifestamente literário e diferentes graus de explicitação; não se trata, porém, de invocações respeitosas, mas de afinidades electivas, e tão delicadamente referidas que o nome é, por vezes, omitido, ficando apenas uma circunstância biográfica ou uma frase para tornar detectável essa cumplicidade:


Tudo o que não é literatura aborrece-me —
queixava-se um checo muito conhecido (p. 14);


ou


Nove anos depois de ter morrido em Barcelona,
na lista de espera para um transplante de fígado,
o poeta continua a ser redescoberto
como a pródiga chegada doutros tempos (p. 60).


O segundo exemplo evidencia a distância entre a literatura como trabalho individual e o aproveitamento que daí faz a grande maioria daqueles que poderíamos designar como promotores culturais (invoco aqui, naturalmente, a célebre noção adorniana de «indústria da cultura»). Ora, a esta distância correspondem, no livro de Golgona Anghel, os contrastes entre palavras ou expressões que apontam para domínios diferentes e até antagónicos. O exemplo do título, entre a suposta ingenuidade Kitsch da «flor de plástico» e a violência da «montra de um talho» (a fazer-nos pensar na pintura de Francis Bacon e na poesia de Luís Miguel Nava), prolonga-se, por exemplo, no título da primeira série de poemas («Fome e pedagogia», entre a urgência e a organização ou o instinto e a racionalidade) ou na relação de paronímia entre «grito» e «greta», que traduz com nitidez o desalento das vozes poéticas deste livro:


O desinteresse acumula-se à minha volta
como as camadas seculares
no tronco de uma sequóia.
Fico imune a queixinhas.
Lavo sozinho a minha roupa.
A minha língua está a ganhar uma espessura lenhosa.
No lugar do grito,
uma greta.
Mãos nos bolsos,
bico calado.
Evito vitrinas e espelhos.
Tenho medo que a verdade
me possa desfigurar o rosto (pp. 53-54).



A desolação é aqui sintomaticamente expressa pela passagem de uma a outra palavra. Se o «grito» representa a intensidade da vida, a plenitude da força humana, a «greta» resulta da «espessura lenhosa» da língua e apresenta-se como um sinal exterior de secura, de retirada da vida. O desalento em segunda mão – porque manifestado, ao longo do livro, pelas diferentes personae –, tão difícil de encarar que obriga a evitar os espelhos, mostra-se, assim, como uma das matérias que enformam a construção poética desta obra.